24 de setembro de 2026
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ICosmetologia
Fisiologia da Barreira Cutânea
A involucrina aparece cada vez mais em estudos de diferenciação epidérmica e é citada com frequência nos materiais técnicos de ativos cosméticos — muitas vezes sem que se entenda exatamente o que ela representa. Este artigo revisita um estudo mais antigo, mas essencial para quem trabalha com desenvolvimento de produtos para barreira cutânea.
Fundamento Molecular
A involucrina é uma proteína estrutural produzida pelos queratinócitos durante a diferenciação epidérmica, aparecendo principalmente quando essas células deixam as camadas mais profundas e avançam em direção às regiões superiores da camada espinhosa e da camada granulosa. É rica em resíduos de glutamina e glutamato, com regiões repetitivas que permitem ligações cruzadas promovidas pelas transglutaminases — formando progressivamente o envelope cornificado, estrutura que substitui funcionalmente a membrana plasmática do queratinócito na sua transformação em corneócito.
A involucrina não é apenas um "marcador de barreira" — ela faz parte da própria construção física do corneócito.
Integração Proteína-Lipídio
O envelope cornificado começa a ser formado pela ligação de proteínas como involucrina e envoplaquina na superfície interna da membrana celular; posteriormente, outras proteínas, incluindo a loricrina, passam a fazer parte dessa estrutura. As ceramidas podem se ligar covalentemente às proteínas do envelope cornificado, principalmente à involucrina — funcionando como base para a organização posterior dos demais lipídios do estrato córneo.
Proteína + Lipídio
Trabalham juntos na formação da barreira — não basta pensar apenas em repor ceramidas, colesterol e ácidos graxos
Modelo de Doença
Na pele saudável, a expressão da involucrina ocorre predominantemente nas regiões superiores da camada espinhosa e na camada granulosa. Na dermatite atópica, os pesquisadores encontraram expressão prematura — já na região intermediária da camada espinhosa — e, apesar da área de expressão estar aumentada, a intensidade estava reduzida. Isso mostra que detectar involucrina não significa necessariamente que a diferenciação epidérmica esteja funcionando corretamente: a distribuição e a quantidade da proteína também importam.
A redução da involucrina poderia estar relacionada à menor quantidade de ?-hidroxiceramidas ligados ao envelope cornificado, contribuindo para a alteração da barreira observada na dermatite atópica.
Visão Conjunta
Na dermatite atópica, os pesquisadores encontraram:
Isso reforça um conceito importante para formuladores: barreira cutânea não depende de uma única proteína. É resultado de diferenciação celular, proteínas estruturais, organização lipídica, ceramidas, colesterol, ácidos graxos e vários processos enzimáticos acontecendo de maneira coordenada.
Aplicação Cosmética
PeptAIde® 4.0 — BASF
Hidrolisado de proteína do arroz enriquecido com peptídeos identificados com auxílio de IA. Nos modelos da BASF, ajudou a recuperar a síntese de involucrina e filagrina reduzida por TNF-a.
Niacinamida
Dados mostram aumento da síntese de involucrina e filagrina, além de estímulo à produção de ceramidas, ácidos graxos e colesterol.
Lactosome 55 e Exo Skin (Glia)
Ativos ligados à comunicação celular, associados ao contexto de diferenciação epidérmica e fortalecimento da barreira.
| Ativo | Relação com a barreira |
| PeptAIde® 4.0 | Involucrina + filagrina |
| Niacinamida | Involucrina + filagrina + lipídios de barreira |
| Lactosome 55 | Diferenciação epidérmica e proteínas de barreira |
| Exo Skin – Glia | Comunicação celular e suporte à diferenciação epidérmica |
| Peptídeos sinalizadores | Podem modular involucrina, filagrina e loricrina |
| Retinoides | Modulam diferenciação epidérmica e expressão de involucrina |
Modular involucrina não significa simplesmente aumentá-la ao máximo. A expressão dessa proteína depende da fase de diferenciação do queratinócito e de sua localização na epiderme — por isso, o mais interessante é analisá-la dentro de um conjunto maior de marcadores de barreira.
Conclusão
Um ativo capaz de favorecer a expressão adequada de involucrina pode estar atuando sobre a diferenciação dos queratinócitos e a formação do envelope cornificado — processos diretamente relacionados à qualidade da barreira epidérmica. Aumentar involucrina isoladamente não prova que um produto restaurou completamente a barreira, mas passa a ser um marcador biologicamente muito mais interessante quando analisado junto com filagrina, loricrina, ceramidas, hidratação e perda transepidérmica de água.
Antes de escolhermos um ativo porque o material técnico diz que ele "aumenta involucrina", precisamos primeiro entender o que é a involucrina e por que ela está ali.
Lucas Portilho — Farmacêutico, Especialista em Cosmetologia e Mestre em Ciências Médicas.
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