Estudo premium

Estrogênio, Macrófagos e Melasma: Um Novo Mecanismo Pode Explicar a Pigmentação Hormonal

02 de setembro de 2026

|

ICosmetologia

Imunologia & Pigmentação

Estrogênio, Macrófagos M2 e VEGF: um novo mecanismo por trás do melasma

Quem trabalha com melasma sabe que os hormônios femininos exercem papel importante no aparecimento e na piora das manchas. Um estudo recente propõe um mecanismo muito mais complexo do que a simples estimulação direta dos melanócitos pelo estrogênio: Estrogênio ? macrófagos M2 ? VEGF ? ativação dos melanócitos ? aumento da melanina.

Novo Paradigma

O melasma não é apenas um problema do melanócito

O melanócito produz melanina por meio de uma cascata regulada principalmente pelo fator de transcrição MITF e por enzimas como a tirosinase e a TYRP-1. Mas essa célula não trabalha sozinha — é influenciada por queratinócitos, fibroblastos, células endoteliais, mastócitos, mediadores inflamatórios e células do sistema imunológico. O melasma deve ser compreendido como uma alteração do microambiente cutâneo.

Os autores observaram aumento da infiltração de macrófagos nas lesões de melasma, especialmente do tipo M2.

Imunologia Básica

Macrófagos M1 vs. M2

Macrófagos M1 — Perfil pró-inflamatório

Produzem TNF-a, IL-1ß, IL-6 e óxido nítrico. Importantes na resposta a agentes infecciosos e na fase inicial dos processos inflamatórios.

Macrófagos M2 — Reparação e remodelamento

Produzem VEGF, TGF-ß e IL-10. Relacionados à modulação inflamatória, reparo tecidual e angiogênese — e, segundo o novo estudo, também à hiperpigmentação do melasma.

Achados na Pele

O que os pesquisadores encontraram nas lesões

Dados transcriptômicos mostraram macrófagos M2 significativamente aumentados nas lesões, com maior expressão de ARG1 — que se correlacionou positivamente com MITF, TYRP-1 e tirosinase. A imunofluorescência confirmou aumento de células CD68?/CD206? nas lesões, sem o mesmo aumento nos marcadores de M1.

STAT6

Via de sinalização ativada pelo estradiol (E2) para polarizar macrófagos em direção ao fenótipo M2

Mecanismo Molecular

Como o VEGF conecta macrófagos e melanócitos

Macrófagos tratados com estradiol aumentaram CD206, ARG1 e IL-10, com redução de TNF-a e iNOS — bloqueando a STAT6, esse efeito diminuiu. O meio condicionado desses macrófagos M2 aumentou o conteúdo de melanina, a atividade da tirosinase e a expressão de MITF nos melanócitos. Entre os mediadores avaliados, o VEGF apresentou o resultado mais consistente nas lesões, colocalizado com macrófagos M2.

Melanócitos expressam o receptor VEGFR-2
A ligação do VEGF ativa as vias p38 MAPK e ERK1/2
Essas vias regulam a expressão de MITF e tirosinase
Bloquear o VEGF reduziu essa ativação e a pigmentação

Estrogênio ativa STAT6 nos macrófagos ? aumenta polarização M2 ? aumenta liberação de VEGF ? VEGF se liga ao VEGFR-2 nos melanócitos ? ativa p38 e ERK1/2 ? aumenta MITF e tirosinase ? aumenta a melanina.

Validação Experimental

Pele ex vivo e modelo animal

Em fragmentos de pele humana ex vivo, o meio condicionado dos macrófagos M2 aumentou a pigmentação — efeito ainda maior com estradiol, e revertido ao neutralizar o VEGF. Em camundongos ovariectomizados, houve redução de macrófagos M2, VEGF dérmico e pigmentação, com aumento de marcadores M1; a administração de estradiol reverteu essas alterações, mas perdeu parte do efeito quando os macrófagos foram depletados.

Limitações do Estudo

O que ainda precisa ser confirmado

Apenas 6 pacientes com melasma avaliados; parte da análise usou dados de base pública
Macrófagos derivados de células THP-1, não macrófagos humanos primários
Sem bloqueio direto dos receptores de estrogênio ou VEGFR-2 em todas as etapas
Pele da cauda de camundongos não reproduz totalmente o melasma facial humano

Conclusão

Uma rede de sinalização, não apenas um melanócito hiperativo

O estrogênio favorece a polarização de macrófagos M2 via STAT6, que aumentam a produção de VEGF, atuando sobre os melanócitos via VEGFR-2 e as vias p38 MAPK/ERK1/2, elevando MITF, tirosinase e melanina. O melasma envolve comunicação constante entre sistema hormonal, células imunológicas, vasos sanguíneos, fibroblastos, queratinócitos e melanócitos.

A ciência continua mostrando que essa hiperpigmentação é muito mais complexa do que simplesmente "produzir melanina demais".


Lucas Portilho — Farmacêutico, Especialista em Cosmetologia e Mestre em Ciências Médicas.

ICosmetologia 2026. Todos os direitos reservados.