01 de setembro de 2026
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ICosmetologia
Relato de Caso · 2026
Um relato de caso publicado em 2026 avaliou uma paciente de 75 anos com pigmentação facial intensa, apresentando melasma difuso, lentigos e irregularidade importante na tonalidade da pele. O que chama atenção é a simplicidade da associação utilizada — três ativos clássicos da cosmetologia, sem nenhuma novidade em termos de moléculas, mas com resultados relevantes já após duas semanas de tratamento.
Protocolo de Aplicação
A paciente apresentava hiperpigmentação bilateral na face, principalmente nas regiões malares e na testa, associada a alterações pigmentares por excesso de exposição solar — dá para perceber muito dano acumulado ao longo dos anos. Foi utilizado um protocolo chamado pelos autores de NewMelan, com a seguinte formulação: Arbutin 1,5% + Ácido Kójico 1% + Ácido Azelaico 1,5%.
3x ao dia
Frequência na 1ª semana, reduzindo para 2x na 2ª e 1x ao dia como manutenção após 15 dias
Depois de aproximadamente duas semanas, os autores observaram redução importante da intensidade da pigmentação e melhora da uniformidade da tonalidade da pele. As fotografias apresentadas no trabalho mostram uma melhora visual bastante evidente.
Também foi descrita melhora discreta na textura e na luminosidade da pele, sem relato de efeitos adversos durante o período avaliado.
Racional Farmacológico
Apesar de serem ativos bastante conhecidos, existe um bom racional por trás da associação — três mecanismos complementares atuando sobre o processo de pigmentação:
Alfa-Arbutin — Inibição da tirosinase
Atua principalmente sobre a tirosinase, uma das principais enzimas responsáveis pela formação da melanina.
Ácido Kójico — Quelação do cobre
Interfere na tirosinase, principalmente pela capacidade de quelar o cobre presente no sítio ativo da enzima cobre-dependente.
Ácido Azelaico — Ação anti-inflamatória
Possui ação sobre a atividade melanocítica e também apresenta propriedades anti-inflamatórias.
Temos, portanto, três ativos conhecidos atuando de maneira complementar sobre o processo de pigmentação. Isso é algo importante no desenvolvimento de uma formulação para melasma: nem sempre colocar seis ou sete clareadores dentro do mesmo produto significa uma fórmula melhor. A escolha dos mecanismos e a tolerabilidade da formulação são fundamentais.
Frequência vs. Concentração
As concentrações utilizadas no protocolo não são particularmente altas. Mesmo assim, na primeira semana a paciente aplicou o produto três vezes ao dia. Quando desenvolvemos uma formulação, normalmente prestamos muita atenção na concentração do ingrediente, mas a frequência de utilização também interfere na exposição da pele aos ativos — uma fórmula com concentrações moderadas usada mais vezes ao dia é uma estratégia completamente diferente de uma formulação muito concentrada aplicada uma única vez.
Claro que isso precisa ser avaliado também em relação à tolerabilidade, principalmente no melasma. Sabemos que irritação e inflamação podem contribuir para alterações pigmentares — por isso, aumentar indiscriminadamente a concentração de despigmentantes nem sempre é uma boa estratégia.
Terminologia
Os autores chamam o tratamento de NewMelan Multimodal Depigmentation Protocol. Vale uma observação em relação a essa nomenclatura: quando falamos em tratamento multimodal do melasma, normalmente pensamos na associação de diferentes estratégias — tópicos, orais, peelings, tecnologias e fotoproteção. Neste trabalho, a multimodalidade está muito mais relacionada aos diferentes mecanismos de ação dos ingredientes presentes na formulação. Isso não diminui o interesse do estudo, mas é importante entendermos exatamente o que foi realizado.
Limitações do Estudo
O resultado apresentado é interessante, mas o desenho do estudo tem limitações importantes:
Quem trabalha com melasma sabe que muitas vezes conseguimos bons resultados inicialmente — o grande desafio é manter esses resultados ao longo dos meses. Por isso é interessante que o protocolo tenha mantido uma aplicação diária após os primeiros 15 dias. Os próprios autores reconhecem que estudos maiores, com maior tempo de acompanhamento e métodos objetivos de avaliação, ainda são necessários.
Conclusão
O ponto interessante desse trabalho não é descobrir um novo ativo clareador — muito pelo contrário. Arbutin, Ácido Kójico e Ácido Azelaico são ativos utilizados há muitos anos. O interessante é observar como a associação de ingredientes conhecidos, com mecanismos diferentes e um esquema específico de aplicação, conseguiu produzir uma melhora visual importante nesse caso.
Às vezes ficamos muito preocupados em encontrar o ingrediente mais novo, mais tecnológico ou recém-lançado, mas uma boa formulação depende também de saber utilizar muito bem aquilo que já conhecemos. Escolher os mecanismos, definir as concentrações, cuidar da tolerabilidade e pensar na manutenção continuam sendo fundamentais quando formulamos para melasma.
Lucas Portilho — Farmacêutico, Especialista em Cosmetologia e Mestre em Ciências Médicas.
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